USP utiliza Simulação Realística na formação de profissionais

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  • Por Kelly Namy

Em um prédio cinza localizado dentro do campus de Bauru da Universidade de São Paulo, fica o Centro de Educação e Capacitação em Saúde, um núcleo de simulação realística montado para ofertar treinamento aos estudantes e trabalhadores do sistema público. O CECS foi inaugurado em 2018 e desde então é coordenado pela enfermeira, professora e doutora Alessandra Mazzo. Ela conta que, no início das atividades, o projeto contava com apenas uma sala e que passou por grandes ampliações, com a expectativa de que se torne ainda maior nos próximos anos.

Voltado especialmente para a área da saúde, o objetivo principal do centro é trabalhar situações problemas, encontradas na vivência do dia a dia profissional, em ambientes controlados e seguros.

HISTÓRIA:

A evolução da simulação realística acompanha a história da medicina. Ainda na Grécia antiga, grandes pensadores foram os precursores das ideias que constituem a metodologia. Hipócrates, o pai da medicina, por exemplo, sugeriu que profissionais da saúde deveriam treinar habilidades práticas através de simulações.

No início, as práticas experimentais eram realizadas em corpos humanos destinados à pesquisa, principalmente por meio de dissecações. Entretanto, relatos históricos marcam também a utilização de materiais alternativos. Durante a Dinastia Song, entre os séculos 10 e 13, praticantes da medicina utilizavam estatuetas de bronze para ensinar sobre a anatomia humana.

Outro marco ocorreu durante o século 16. Em uma Europa tomada pelo Cristianismo, a prática da dissecção humana ia contra os dogmas da Igreja e foi proibida. Assim, como método alternativo, foram criadas peças anatômicas de cera, facilitando o estudo e a prática de intervenções.

Em avanço para o século 20, muitas tecnologias foram criadas para facilitar a formação de profissionais da área. Em 1911, Martha Jenkins Chase foi responsável por criar o primeiro manequim destinado ao treinamento de enfermeiros, permitindo a avaliação de técnicas cotidianas da profissão. Mais tarde, outros modelos foram criados, visando, por exemplo, o treinamento de técnicas obstétricas e a simulação de situações de guerra.

Um dos mais conhecidos modelos de simulação, nasceu a partir de uma história que ultrapassa a medicina. O rosto utilizado neste boneco anatômico pertence a uma mulher que morreu afogada no Rio Sena, em Paris, no século 19. O molde do rosto da jovem sem nome foi utilizado para diversos fins, até que em meados da década de 60, o norueguês Asmund S. Laerdal, após passar por uma experiência traumática com seu filho, criou a Resusci Anne, um modelo de treinamento que possui coração, pulmões e pulso carotídeo, revolucionando a prática da reanimação cardiopulmonar.

Desde então a prática da simulação realística ganhou mais recursos tecnológicos e foi direcionada ao treinamento de profissionais de várias vertentes. Atualmente, diversos centros de ensino prezam pelo uso da metodologia na formação dos alunos. A USP é mais um dos exemplos de instituições que adota a prática.

PARA ALÉM DA TECNOLOGIA:

Parte das atividades depende de uma boa estrutura e equipamentos de qualidade, o que exige grande investimento financeiro. Entretanto, a simulação abrange práticas que extrapolam a habilidade física e exigem do aluno uma visão holística do cenário abordado.

“A gente nunca treina uma técnica apenas pela técnica, sempre incluímos as três coisas, conhecimento, habilidade e atitude”, diz Alessandra.  O treinamento deve abranger uma gama de habilidades, sempre prezando pela execução das práticas com intuito de replicar o que ocorre na vida real.

É comum que os alunos contracenem entre si, alguns exercendo o papel de profissional, enquanto outros se colocam no lugar de paciente, proporcionando uma visão empática pelas experiencias vividas por ambas as partes. Além disso, em algumas situações, atores são contratados para que haja maior veracidade do cenário apresentado.

As técnicas têm como objetivo imergir o estudante e torná-lo apto a execução dos ensinamentos no dia a dia profissional. “Isso prepara o profissional para fazer melhor lá, não dá para ele estudar sobre aquilo e já treinar no paciente […] Hoje a gente não concebe mais a ideia de que um estudante da saúde vá para a prática sem treinar antes, porque nós temos uma quantidade tão grande de recursos que, eticamente, seria muito errado não proporcionar essa vivência”, relata Alessandra.

OS ALUNOS:

No dia 17 de outubro, o CECS recebeu uma leva de graduandos do curso de medicina da USP para a avaliação de conhecimentos práticos. Os cases e cenários foram preparados de modo com que os estudantes conseguissem simular atendimentos curtos, com o objetivo de avaliar as competências necessárias no exercer da profissão.

“Desde o primeiro ano, nós temos aulas de simulação e a gente cumpre muito bem o objetivo dela, que é criar um ambiente em que a gente pode errar e treinar quantas vezes forem necessárias, antes de chegar na prática. […] É uma forma de lembrar e perceber como o paciente se sente, a simulação cumpre um papel muito importante na graduação”, conta Carolina Perroud de Matos, estudante do último ano de medicina da USP.

INTEGRAÇÃO COM A COMUNIDADE:

O CECS estabelece uma responsabilidade social nas atividades que desenvolve. Assim, além dos alunos, profissionais que atuam no sistema público também são beneficiados pelas simulações ofertadas.

“Tudo que a gente precisa fazer em termos de capacitação é oferecido, capacitação prática mesmo, com os profissionais que já atuam na rede […], mas a simulação não necessariamente precisa acontecer dentro do laboratório”, explica Alessandra.

A professora conta sobre algumas vivências que marcam a sua jornada no CECS. Por exemplo, a capacitação que ocorreu na escola de policiais de Bauru, que ofertou uma simulação realística de um parto dentro de uma viatura, possibilitando o treinamento de futuros policiais para uma possível ocorrência do dia a dia.

“Logo que eu cheguei aqui, teve uma atividade que me marcou muito. Bauru estava reorganizando a questão dos atendimentos às crianças na rede pública de saúde. Os enfermeiros iam começar atender esse público e tinha muito tempo que eles não faziam esse tipo de atendimento, então vieram todos, divididos em grupos, e eles treinaram aqui o dia inteiro. Foi muito marcante para eles e para gente”, lembra Alessandra.

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