O avanço dos casos de sarampo no estado de São Paulo colocou o sistema de saúde em estado de alerta. Com 23 casos confirmados recentemente e índices de imunização em queda, a Secretaria de Estado da Saúde impulsionou uma grande campanha de bloqueio e atualização vacinal. Em resposta à ameaça de surto, Bauru aderiu à Campanha Estadual de Multivacinação, garantindo o acesso às doses em toda a sua rede de atenção básica.
O Cenário Epidemiológico e o Risco
A reintrodução do vírus é resultado direto de bolsões de pessoas suscetíveis pela falta de imunização. Dados preliminares de 2026 apontam que a cobertura da vacina tríplice viral – que protege contra sarampo, caxumba e rubéola – no estado de São Paulo está em 77,5% para a primeira dose e apenas 65,5% para a segunda.
O Ministério da Saúde preconiza que, para evitar surtos da doença, a cobertura ideal deve atingir 95%. O sarampo é uma doença respiratória altamente contagiosa, capaz de gerar complicações graves como pneumonia e encefalite, com impacto ainda mais agressivo na primeira infância.
A Estratégia de Defesa em Bauru
Para criar uma barreira imunológica municipal, a Prefeitura de Bauru está operando a campanha em todas as suas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Unidades de Saúde da Família (USFs). A mobilização tem como alvo principal a atualização da caderneta de crianças e adolescentes menores de 15 anos.
A Secretaria da Saúde também reforça diretrizes específicas diante do alerta estadual:
A “Dose Zero”: Especialistas recomendam a aplicação de uma dose adicional da vacina tríplice viral para bebês de 6 a 11 meses. Essa etapa antecipa a proteção dos lactentes, mas não substitui as doses de rotina do calendário nacional exigidas aos 12 e 15 meses.
Adultos Jovens: Moradores de até 59 anos que não possuem a comprovação em carteira ou não têm certeza se tomaram a vacina no passado devem buscar as unidades para regularizar o esquema vacinal.
📍 Serviço: Vacinação contra o Sarampo no Mapa
Onde: Em todas as UBSs e USFs de Bauru. Utilize a aba “Minha Rua” no nosso Mapa de Saúde para localizar a unidade de referência do seu bairro.
Horário: De segunda a sexta-feira, das 7h30 às 16h30.
O que levar: Documento de identificação com CPF e a caderneta de vacinação. Caso tenha perdido a caderneta, a orientação é comparecer ao posto de saúde para que os profissionais avaliem a necessidade de novas aplicações.
Em um prédio cinza localizado dentro do campus de Bauru da Universidade de São Paulo, fica o Centro de Educação e Capacitação em Saúde, um núcleo de simulação realística montado para ofertar treinamento aos estudantes e trabalhadores do sistema público. O CECS foi inaugurado em 2018 e desde então é coordenado pela enfermeira, professora e doutora Alessandra Mazzo. Ela conta que, no início das atividades, o projeto contava com apenas uma sala e que passou por grandes ampliações, com a expectativa de que se torne ainda maior nos próximos anos.
Voltado especialmente para a área da saúde, o objetivo principal do centro é trabalhar situações problemas, encontradas na vivência do dia a dia profissional, em ambientes controlados e seguros.
HISTÓRIA:
A evolução da simulação realística acompanha a história da medicina. Ainda na Grécia antiga, grandes pensadores foram os precursores das ideias que constituem a metodologia. Hipócrates, o pai da medicina, por exemplo, sugeriu que profissionais da saúde deveriam treinar habilidades práticas através de simulações.
No início, as práticas experimentais eram realizadas em corpos humanos destinados à pesquisa, principalmente por meio de dissecações. Entretanto, relatos históricos marcam também a utilização de materiais alternativos. Durante a Dinastia Song, entre os séculos 10 e 13, praticantes da medicina utilizavam estatuetas de bronze para ensinar sobre a anatomia humana.
Outro marco ocorreu durante o século 16. Em uma Europa tomada pelo Cristianismo, a prática da dissecção humana ia contra os dogmas da Igreja e foi proibida. Assim, como método alternativo, foram criadas peças anatômicas de cera, facilitando o estudo e a prática de intervenções.
Em avanço para o século 20, muitas tecnologias foram criadas para facilitar a formação de profissionais da área. Em 1911, Martha Jenkins Chase foi responsável por criar o primeiro manequim destinado ao treinamento de enfermeiros, permitindo a avaliação de técnicas cotidianas da profissão. Mais tarde, outros modelos foram criados, visando, por exemplo, o treinamento de técnicas obstétricas e a simulação de situações de guerra.
Um dos mais conhecidos modelos de simulação, nasceu a partir de uma história que ultrapassa a medicina. O rosto utilizado neste boneco anatômico pertence a uma mulher que morreu afogada no Rio Sena, em Paris, no século 19. O molde do rosto da jovem sem nome foi utilizado para diversos fins, até que em meados da década de 60, o norueguês Asmund S. Laerdal, após passar por uma experiência traumática com seu filho, criou a Resusci Anne, um modelo de treinamento que possui coração, pulmões e pulso carotídeo, revolucionando a prática da reanimação cardiopulmonar.
Desde então a prática da simulação realística ganhou mais recursos tecnológicos e foi direcionada ao treinamento de profissionais de várias vertentes. Atualmente, diversos centros de ensino prezam pelo uso da metodologia na formação dos alunos. A USP é mais um dos exemplos de instituições que adota a prática.
PARA ALÉM DA TECNOLOGIA:
Parte das atividades depende de uma boa estrutura e equipamentos de qualidade, o que exige grande investimento financeiro. Entretanto, a simulação abrange práticas que extrapolam a habilidade física e exigem do aluno uma visão holística do cenário abordado.
“A gente nunca treina uma técnica apenas pela técnica, sempre incluímos as três coisas, conhecimento, habilidade e atitude”, diz Alessandra. O treinamento deve abranger uma gama de habilidades, sempre prezando pela execução das práticas com intuito de replicar o que ocorre na vida real.
É comum que os alunos contracenem entre si, alguns exercendo o papel de profissional, enquanto outros se colocam no lugar de paciente, proporcionando uma visão empática pelas experiencias vividas por ambas as partes. Além disso, em algumas situações, atores são contratados para que haja maior veracidade do cenário apresentado.
As técnicas têm como objetivo imergir o estudante e torná-lo apto a execução dos ensinamentos no dia a dia profissional. “Isso prepara o profissional para fazer melhor lá, não dá para ele estudar sobre aquilo e já treinar no paciente […] Hoje a gente não concebe mais a ideia de que um estudante da saúde vá para a prática sem treinar antes, porque nós temos uma quantidade tão grande de recursos que, eticamente, seria muito errado não proporcionar essa vivência”, relata Alessandra.
OS ALUNOS:
No dia 17 de outubro, o CECS recebeu uma leva de graduandos do curso de medicina da USP para a avaliação de conhecimentos práticos. Os cases e cenários foram preparados de modo com que os estudantes conseguissem simular atendimentos curtos, com o objetivo de avaliar as competências necessárias no exercer da profissão.
“Desde o primeiro ano, nós temos aulas de simulação e a gente cumpre muito bem o objetivo dela, que é criar um ambiente em que a gente pode errar e treinar quantas vezes forem necessárias, antes de chegar na prática. […] É uma forma de lembrar e perceber como o paciente se sente, a simulação cumpre um papel muito importante na graduação”, conta Carolina Perroud de Matos, estudante do último ano de medicina da USP.
INTEGRAÇÃO COM A COMUNIDADE:
O CECS estabelece uma responsabilidade social nas atividades que desenvolve. Assim, além dos alunos, profissionais que atuam no sistema público também são beneficiados pelas simulações ofertadas.
“Tudo que a gente precisa fazer em termos de capacitação é oferecido, capacitação prática mesmo, com os profissionais que já atuam na rede […], mas a simulação não necessariamente precisa acontecer dentro do laboratório”, explica Alessandra.
A professora conta sobre algumas vivências que marcam a sua jornada no CECS. Por exemplo, a capacitação que ocorreu na escola de policiais de Bauru, que ofertou uma simulação realística de um parto dentro de uma viatura, possibilitando o treinamento de futuros policiais para uma possível ocorrência do dia a dia.
“Logo que eu cheguei aqui, teve uma atividade que me marcou muito. Bauru estava reorganizando a questão dos atendimentos às crianças na rede pública de saúde. Os enfermeiros iam começar atender esse público e tinha muito tempo que eles não faziam esse tipo de atendimento, então vieram todos, divididos em grupos, e eles treinaram aqui o dia inteiro. Foi muito marcante para eles e para gente”, lembra Alessandra.
O Laboratório de Pesquisa em Movimento Humano, MOVI-LAB, está localizado no campus da Unesp de Bauru. Entretanto, mesmo para aqueles mais acostumados com a universidade, o local ainda pode ser desconhecido. Ele fica ao lado do Departamento de Comunicação Social, em uma casa convidativa que abriga um time de pesquisadores que trabalha para entender a biomecânica do ser humano.
Entre as diversas pesquisas, um dos focos principais do laboratório é o estudo sobre os impactos da Doença de Parkinson na movimentação dos pacientes e a elaboração de intervenções capazes de melhorar a qualidade de vida desses indivíduos.
Murilo Henrique Faria, formado em educação física e atual coordenador do MOVI-LAB, conta que o laboratório possui uma parceria com o Ativa Parkinson, um projeto multidisciplinar desenvolvido pelo Departamento de Educação Física da UNESP.
Em conjunto, as equipes oferecem auxílio na prática de exercícios para pessoas que possuem a doença de Parkinson. “Dentre os muitos efeitos benéficos, além da parte física, está também o da interação social, já que esses pacientes tendem a se fechar um pouco”, diz.
No final de maio deste ano, a equipe abriu as inscrições para a participação nas atividades. O recrutamento foi divulgado através das redes sociais e é voltado para pessoas com mais de 50 anos e que possuam o diagnóstico de Parkinson. O recrutamento não é restrito apenas a uma área, já que o laboratório conta com diversas atuações.
Há pouco mais de um ano, o MOVI-LAB começou a desenvolver um estudo envolvendo o uso da hipóxia em pacientes com Parkinson. A ideia foi introduzida pelo professor Carlos Augusto Kalva Filho. Com experiência no uso da técnica em atletas, ele sugeriu que uma pesquisa voltada para os pacientes com a Doença de Parkinson fosse desenvolvida. A proposta, então, foi aceita e implementada no laboratório pelo Prof. Dr. Fabio Augusto Barbieri.
“Ainda há poucos estudos que avaliam os efeitos da hipóxia, que é uma concentração reduzida de oxigênio no ambiente, neste caso, de forma proposital”, explica Murilo, ao ser questionado sobre o surgimento do estudo.
O procedimento envolve o uso de alguns equipamentos. A barraca, por exemplo, é utilizada para proporcionar uma menor oferta de oxigênio por períodos intermitentes, permitindo o controle da saturação dos participantes. Ou seja, a proposta, em primeiro momento, é utilizar a técnica de forma aguda para analisar possíveis melhorias no sono e na marcha dos avaliados.
Murilo Henrique Faria em frente aos equipamentos utilizados
Com a colaboração da Escola de Educação Física e Esportes de Ribeirão Preto (USP), o laboratório conseguiu os equipamentos necessários para começar a pesquisa. Recentemente, entretanto, a equipe recebeu um financiamento da FAPESP, permitindo a continuidade dos estudos.
“Por ser uma linha de pesquisa nova, ainda não tínhamos toda a estrutura para aplicar a estratégia, mas com o recebimento de um milhão de reais vamos realizar a compra da barraca e do gerador de hipóxia”, explica. O planejamento é que os testes em pacientes comecem ainda neste ano.